DECA SIBILO

Monday, July 28, 2008

Eu queria escrever belo poema
Pra menina que tem meu coração
Eu queria pintar de alfazema
Meus dizeres de espantar solidão
Prometi versos vastos bem medidos
Decassílabos, pra ela dançar
Só pedi que na paga do cerzido
Fosse um beijo na boca me alcançar
Pois de tão confiante o meu ditado
Foi-me pago o poema de antemão
Antes mesmo de saber resultado
Mariana beijou-me o amor bufão
Tu dirás: “Mas que sorte, seu danado
Ganhas prenda em juras de ocasião”
Pois dirás por não saberes o fardo
Que carrego nas costas desde então
Desde o beijo que me tomou, amada
Mariana me cobra o pagamento
Mas eu já não consigo rimar nada
Foi-me embora no beijo o pensamento
Minha moça está insatisfeita
Por não ver ser honrado o combinado
Vai na vida ficando rarefeita
Mariana vai me pondo de lado
Me disseram que o meu triste sofrer
Era só um problema de expressão
Que era só tal problema resolver
Que eu teria de volta o meu quinhão
Acontece que eu já espremi com força
Pra ver o que do peito me saía
E não importa o que eu faça, o quanto eu torça

Não sai mais uma gota de poesia.

TAMBORIM

Thursday, July 24, 2008

Bateu uma insônia. De novo.
“Como tudo pode ser assim tão dispensável?”, é só nisso que ela pensa agora. Essa mulher tem alguns anos já corridos. Era de se esperar que, a essa altura da vida, ela já tivesse no coração algo mais que esse vazio. Algo que importasse a ponto de ela guardar dentro do peito. Algo que ela deixasse ficar. Mas não, seu coração é tão oco que o eco que produz ressoa num tamborilar aflito. Tum (tum), Tum (tum), Tum (tum). Vai ver que é isso que a mantém acordada na noite de hoje e em todas as outras. Esse eco alto.
Tendo essa idéia fresca na cabeça, ela olha para o lado oposto da cama. O homem que lá dorme, nú e ressonante, nada mais é que pele e pêlos. Pele e pêlos em um conjunto que não faz nenhum sentido.
Ela enfim o abraça. Não porque o ame, mas porque tem frio e o cobertor está muito longe, caído no chão.
Vai tentar, mais uma vez, dormir.

RÉQUIEM

Monday, June 30, 2008

Não é remorso que tuas lágrimas me causam
Nem desgosto por teu sofrimento vão
Teu choro me chega como a canção
Que anuncia a chegada dos artistas
“Respeitável público!
Quem não rir não paga
Vem, senão acaba
O momento único!”
Claro, estou feliz e não disfarço
Por trazer-te o mais triste querer
Fiz milagre, coisa nobre e altruísta:
Eu trouxe a poesia para a tua pobre rima!

CALADO

Friday, June 20, 2008

É da tua boca curva que eu choro mais a falta.
Quando ainda a tinha pra mim, eram poucas as vezes em que ela ficava seca. Eu quase não deixava. Dançava a minha nas voltas da tua, minha boca largada no meio da curva. Boca. A tua.
Lambia tuas palavras não ditas, engolidas em favor do beijo. Te espiava, oculto pelas tuas pálpebras, me encantava com o teu silêncio de olhos fechados. Me divertia com o teu esforço, tão pequena que tu eras. Diminuta em tua boca rosa-silente.
Não deverias nunca ter falado. Muito menos eu. Engraçado que palavras tão contrastantes possam sair de bocas que se amam imensamente. Falamos tanto que secaram os lábios e granulou o beijo.
Isso era ontem. Hoje vi você e a tua boca. Flagrantemente úmida, por não ter mais que me censurar por horas, ou por ter outra boca a te calar.

H

Tuesday, June 17, 2008

Henrique mora num hiato. Há quem diga que ele está só de passagem, mas ninguém demora tanto tempo pra passar por qualquer lugar. Se demora, já brota raiz da haste.
Bem que eu diria isso a ele, mas Henrique já tem problemas demais. Suas ambições e projetos pro futuro são por demais assanhados. Quer fazer barulho. Sonha com o topo da hierarquia. Sonha sozinho, por não ter ninguém que tenha nele tanta fé.
Deixa que hoje o Henrique se engana. Amanhã, quem sabe amanhã, ele acorda e se decide por uma vida mediana. Que mal há nisso, não é mesmo?
Não é nenhum crime que a nossa história seja um H que ninguém escuta.

PRENDA-ME

Sunday, May 25, 2008

Vem, recebe a minha prenda
Eu quero que entenda
O quanto já sou seu
Nas gotas da minha tinta
Eu quero que sinta
Em cada, um beijo meu
Na morada do seu leito
Entrego-lhe meu peito
Pro seu suspirar
Na sua boca libertina
Canto-lhe:"Menina,
Não vá me escapar"
Depois, corado, me desfaço
De qualquer pedaço
De antes ou depois
Guardo-me feliz, calado
Por ti apaixonado
Poeta de nós dois.

CONSOLO SERVIDO NO COLO

Wednesday, May 07, 2008

Passa.
Digo-te sincero: passa.
Guarde então tuas flores sussurradas
Tuas dores de amor desperdiçadas.
É deixando envelhecer o jovem peito
Que carregas, orgulhoso, imerso em mágoas
Que verás que, dentre as lágrimas
As de amor são sempre as primeiras a secar.

Confia.
Haverás de ter a amada esquecida
Tão desesperadamente longa é a vida...

DESISTO

Sunday, April 20, 2008

Dei ouvidos à voz do Divino
Que se escuta nos lábios do povo
Os meus passos têm um peso novo
Assumi o meu corpo libertino.

Todos sempre me disseram puto
Corrompido e sem nenhum valor
Eu, ferido, cantava em louvor
Meu valores de amor resoluto.

Mas agora, de que vale a pena
Se essa voz que me difama e curra
Sai da boca da minha pequena?

Se minha amada me acha um devasso
De que vale o esforço que faço?
Me entrego à orgia serena!

OLHA SÓ COMO É

Wednesday, April 02, 2008

Eu tenho um problema de concentração. E eu acho, seriamente, que essa vai ser a minha perdição.
É recorrente: estou fisicamente em um lugar e minha cabeça sai ventando para outro. Não é por vontade não, porque vontade eu tenho de juntar cabeça e corpo, mente e carne. O que acontece é que o pensamento se ensaboa e não há o que o segure. Meu corpo está ali num contexto e a mente já por outro se encanta. Fuuuuuuu.

Eu tenho esse problema. Minhas letras estão aqui, mas a poesia já está em outro papel. Eu acho, de verdade, que isso não deve fazer bem.

ESCLARECENDO

Saturday, March 22, 2008

“Ao cair, desvie do chão!”

Quer conselho mais idiota que esse? Mas era assim que a Clarinha filosofava. Transformava frases sem sentido em verdades universais.

“Ninguém prende a respiração a vida toda”

Eu fingia entender todas elas. Não me censure, eu era um garoto com o coração descompassado e com todas as vontades de amar Clarinha. Me tornei seu discípulo mais fiel (e único, para a paz do meu egoísmo).

“Quem ama o que não tem, não sabe a hora que passa o trem”

Sempre que soltava uma de suas verdades-minuto, eu anotava no meu caderninho e dizia que era para que as futuras gerações (“que hei de plantar em Clarinha”) pudessem entrar em contato com seus ensinamentos maravilhosos. Ela se enchia de orgulho e me tocava a perna em agradecimento. Achei que a minha atenção inventada e os recorrentes toques na coxa fariam de mim seu eterno namorado.

Bobagem. Hoje vejo que eu não sabia de nada não. É como já dizia Clarinha:

“Fogo que pega na palha, penteia a navalha e some no além”.

Quarto 94

Friday, March 14, 2008

Perdoa-me o beijo atrasado
Que deixo em tua porta cerrada
Vim dar-te minha pele apressada
Te encontro já em sono velado.

Perdi teus toques suspirados
Suados, das noites em claro
Que faço, se já me é tão raro
Dormir em teus sonhos nevados?

Sem ter a tua boca tardia
Recolho os meus beijos e, arfando,
Retorno à minha cama vazia.

Mas deixo esta rosa atrevida
Que pousa em tua porta pensando

Ser ela a tua nova querida.

DÁ LICENÇA

Tuesday, February 12, 2008

Quero o meu
silêncio
quieto
de pouco
cantar.

Dou minha
voz sem
recompensa
nem compensa
ter outra
em seu lugar.

Quem se
incomodar
com a falta
e com a
verdade alta
das minhas
tão mudas
cadências

PARTA.

Não se
vista
de
rogado.

Mas
deixe um
lápis do
meu lado
para eu
pintar
reticências.

PARA ONDE VÃO AS ROSAS?

Tuesday, January 29, 2008

Secou-me a roseira
Morreu de abandono
Embarcou num sono
De morte inteira
Não ousei tocá-la
Que descanse plena
Na pausa serena
Que agora a embala
Ficou muito rasa
A minha existência
Tomei desistência
Mudei-me de casa
Fingi desapego
Nem missa rezei
Menti, simulei
Um grande sossego
Nem vi quando a rosa
Ao ter-me a partir
Botou-se a sorrir
Toda indecorosa
“- Se partes, te curro,
Pra mim não há volta”
E a rosa em revolta
Virou-me um sussurro.

TRAGA

Sunday, January 20, 2008

Trocou suas unhas pelo cigarro do marido. Tanto roía as unhas Dona Judith que chegava o sabão a doer na hora do banho. Não bastasse o dedo doído por si só, a cabeça também começou a coçar por falta de uma lavagem eficiente. Somados os reveses, achou por bem trocar de vício.
Tem pavor do cheiro de cigarro a Dona Judith. Do cheiro, mas não do gosto. Descobriu que chupando o cigarro apagado, vinha o gostinho queimado do beijo do marido Seu José. Era como voltar à mocidade macia de outros tempos, em que o difícil era conter o beijo inquieto de Seu José, jovem ainda e sem a alcunha de Seu. Agora, Dona Judith cultiva uma língua solitária, fadada ao consolo de um gostinho.
Mesmo avançado na idade, o marido de Dona Judith dava suas caminhadas noturnas. Saía perfumado, com o cabelo e o colarinho igualmente engomados e um cravo estrelado no peito. As horas passavam e Seu José voltava ao lar pouco antes do Sol revelador nascer. Entrava pé enrugado ante pé enrugado, pensando-se oculto no escuro da sala. Mas Dona Judith, sentada no sofá, chupando seu cigarrinho, reconhecia o marido. Mesmo com os cabelos desgrenhados, o colarinho sujo de batom e o perfume misturado, Dona Judith reconhecia o marido e pensava em que canto desse mundo tinha ido parar o cravo do peito marital dessa vez.
“De que adianta tanta goma no cabelo?” – e Dona Judith suspirava o seu cigarrinho, soltando uma baforada muda de fadiga.

NU

Monday, January 14, 2008

Peco às pencas ultimamente
Calo a fala de ternura
Com a fome de sujeira.
Penso que essa festa me é recente
Me vem de um pós vida-dura
E um pré pra-vida-inteira.
De que servem modos e canduras
Se a glória verdadeira
Só se entrega ao descrente?
Tragam-me as gazes e ataduras!
Nessa orgia de primeira
Sangro a minh’alma indecente.
Sinto que essa febre é passageira
E que o gozo inconseqüente
(Injustiça!) pouco dura
Faça, então, minha pele corriqueira;
Leve, mesmo penitente,
Nas lambidas da Fartura.

MINHA POUCA BOCA

Friday, December 28, 2007

Não me basta a boca que tenho
Que quer beijar-te enquanto te fala de amor
Que quer sorrir-te enquanto te morde o pudor
E canta silente enquanto te sopra o cenho.

É por isso que paro indeciso
As palavras tropeçam nos lábios inquietos
E meus olhos se perdem nos seus, prediletos
Se deixando levar sem prudência ou siso.

Quem me dera ter-te múltipla e minha
Quem me dera infinitos lábios dedicados
A fazerem-te incapaz de amar sozinha

Na bagunça de minhas bocas e tuas várias
Fugiríamos, originais apaixonados
A cantar meus versos teus em outras árias.

T(ÍBIA) V(ISION)

Thursday, December 27, 2007

Percebi que o legal em ser criança, daquelas bem novinhas e nanicas, é que a gente só conhece a maioria das pessoas pela região do joelho. Quando muito, até a cintura. Faz muita diferença.

EU SEI COMO FAZER

Monday, December 17, 2007

Era só trazer-te as letras
Lambidas da minha casta adoração
Dedicar-te hinos
As notas de um amor temporão
Eu só precisava calar tuas inquietações tão rasas
E dar-te os motivos de uma preocupação febril
Suada

Aflita e infantil na sua impotência

Chorar
Só seria preciso que eu chorasse
Combinando o teu nome e meus soluços
Cantar tua falta em um grito de socorro
Até que a tua mão me estenda o sono protelador

Enfim, botar-te nua em minhas linhas
E forrar teus arredores com espelhos
E ao ver-se assim, tão linda em meus anseios

Tão crua em meus devaneios
Embevecida na ternura que eu te entrego
Ao sentir-se a musa dos meus batimentos
E a causadora dos meus simples descompassos

Você me amaria
Amaria e seria dependente
Desse amor, que te atribui feições divinas

Dos meus olhos, que te acreditam tão perfeita.

MUITO PRAZER

Wednesday, December 12, 2007

Silêncio.

- São dez horas. Você já quer ir embora?
- Ainda não. E você?
- Também não. Então vai, é a sua vez.

O processo é importante. A pausa deve ser curta.

- Eu fui loiro até os quatro anos de idade.

Precisamos nos atualizar do que aconteceu na vida um do outro durante a nossa mútua ausência; o que no nosso caso significa, basicamente, toda a vida que vem antes do nosso primeiro encontro no domingo.

- Eu nasci pequenininha. Pesava menos que um lombinho.

Eu não sei como acontece, mas o que acontece eu sei. Acontece uma vontade grande de mostrar logo quem eu sou e saber logo quem ela é. Assim, a gente já pula a fase do desconforto e do constrangimento que o desconhecido tráz e vive em compasso com a nossa familiaridade precoce. E eu quero poder fazer um carinho no cabelo dela, o quanto antes.

- Meu primeiro beijo teve gosto de esfiha.

- Credo! Minha vez. Eu morava em Brasília.

Eu vou escrevendo a sua biografia na minha cabeça. Juntando os fatos de uma vida que eu já deveria conhecer. Ela tem uma cicatriz na testa...

- Tá olhando o quê?
- ... hum?
- É a sua vez! Tá fazendo o que aí me olhando?
- Ah. Tô tirando foto. Quero uma biografia ilustrada.

Ela é tímida. Isso eu já sabia.

- Bobo... São duas horas. Já quer ir embora?
- Nunca.
- Também não. Então vai, é a sua vez.

QUE SEJA

Wednesday, November 28, 2007

É que hoje eu trago a leveza dos desnecessários.
Minha presença pode tanto ir quanto vir;
Ao gosto dos desinteresses,

Ao ritmo dos refractários.

 
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