DÁ LICENÇA

Tuesday, February 12, 2008

Quero o meu
silêncio
quieto
de pouco
cantar.

Dou minha
voz sem
recompensa
nem compensa
ter outra
em seu lugar.

Quem se
incomodar
com a falta
e com a
verdade alta
das minhas
tão mudas
cadências

PARTA.

Não se
vista
de
rogado.

Mas
deixe um
lápis do
meu lado
para eu
pintar
reticências.

PARA ONDE VÃO AS ROSAS?

Tuesday, January 29, 2008

Secou-me a roseira
Morreu de abandono
Embarcou num sono
De morte inteira
Não ousei tocá-la
Que descanse plena
Na pausa serena
Que agora a embala
Ficou muito rasa
A minha existência
Tomei desistência
Mudei-me de casa
Fingi desapego
Nem missa rezei
Menti, simulei
Um grande sossego
Nem vi quando a rosa
Ao ter-me a partir
Botou-se a sorrir
Toda indecorosa
“- Se partes, te curro,
Pra mim não há volta”
E a rosa em revolta
Virou-me um sussurro.

TRAGA

Sunday, January 20, 2008

Trocou suas unhas pelo cigarro do marido. Tanto roía as unhas Dona Judith que chegava o sabão a doer na hora do banho. Não bastasse o dedo doído por si só, a cabeça também começou a coçar por falta de uma lavagem eficiente. Somados os reveses, achou por bem trocar de vício.
Tem pavor do cheiro de cigarro a Dona Judith. Do cheiro, mas não do gosto. Descobriu que chupando o cigarro apagado, vinha o gostinho queimado do beijo do marido Seu José. Era como voltar à mocidade macia de outros tempos, em que o difícil era conter o beijo inquieto de Seu José, jovem ainda e sem a alcunha de Seu. Agora, Dona Judith cultiva uma língua solitária, fadada ao consolo de um gostinho.
Mesmo avançado na idade, o marido de Dona Judith dava suas caminhadas noturnas. Saía perfumado, com o cabelo e o colarinho igualmente engomados e um cravo estrelado no peito. As horas passavam e Seu José voltava ao lar pouco antes do Sol revelador nascer. Entrava pé enrugado ante pé enrugado, pensando-se oculto no escuro da sala. Mas Dona Judith, sentada no sofá, chupando seu cigarrinho, reconhecia o marido. Mesmo com os cabelos desgrenhados, o colarinho sujo de batom e o perfume misturado, Dona Judith reconhecia o marido e pensava em que canto desse mundo tinha ido parar o cravo do peito marital dessa vez.
“De que adianta tanta goma no cabelo?” – e Dona Judith suspirava o seu cigarrinho, soltando uma baforada muda de fadiga.

NU

Monday, January 14, 2008

Peco às pencas ultimamente
Calo a fala de ternura
Com a fome de sujeira.
Penso que essa festa me é recente
Me vem de um pós vida-dura
E um pré pra-vida-inteira.
De que servem modos e canduras
Se a glória verdadeira
Só se entrega ao descrente?
Tragam-me as gazes e ataduras!
Nessa orgia de primeira
Sangro a minh’alma indecente.
Sinto que essa febre é passageira
E que o gozo inconseqüente
(Injustiça!) pouco dura
Faça, então, minha pele corriqueira;
Leve, mesmo penitente,
Nas lambidas da Fartura.

MINHA POUCA BOCA

Friday, December 28, 2007

Não me basta a boca que tenho
Que quer beijar-te enquanto te fala de amor
Que quer sorrir-te enquanto te morde o pudor
E canta silente enquanto te sopra o cenho.

É por isso que paro indeciso
As palavras tropeçam nos lábios inquietos
E meus olhos se perdem nos seus, prediletos
Se deixando levar sem prudência ou siso.

Quem me dera ter-te múltipla e minha
Quem me dera infinitos lábios dedicados
A fazerem-te incapaz de amar sozinha

Na bagunça de minhas bocas e tuas várias
Fugiríamos, originais apaixonados
A cantar meus versos teus em outras árias.

T(ÍBIA) V(ISION)

Thursday, December 27, 2007

Percebi que o legal em ser criança, daquelas bem novinhas e nanicas, é que a gente só conhece a maioria das pessoas pela região do joelho. Quando muito, até a cintura. Faz muita diferença.

EU SEI COMO FAZER

Monday, December 17, 2007

Era só trazer-te as letras
Lambidas da minha casta adoração
Dedicar-te hinos
As notas de um amor temporão
Eu só precisava calar tuas inquietações tão rasas
E dar-te os motivos de uma preocupação febril
Suada

Aflita e infantil na sua impotência

Chorar
Só seria preciso que eu chorasse
Combinando o teu nome e meus soluços
Cantar tua falta em um grito de socorro
Até que a tua mão me estenda o sono protelador

Enfim, botar-te nua em minhas linhas
E forrar teus arredores com espelhos
E ao ver-se assim, tão linda em meus anseios

Tão crua em meus devaneios
Embevecida na ternura que eu te entrego
Ao sentir-se a musa dos meus batimentos
E a causadora dos meus simples descompassos

Você me amaria
Amaria e seria dependente
Desse amor, que te atribui feições divinas

Dos meus olhos, que te acreditam tão perfeita.

MUITO PRAZER

Wednesday, December 12, 2007

Silêncio.

- São dez horas. Você já quer ir embora?
- Ainda não. E você?
- Também não. Então vai, é a sua vez.

O processo é importante. A pausa deve ser curta.

- Eu fui loiro até os quatro anos de idade.

Precisamos nos atualizar do que aconteceu na vida um do outro durante a nossa mútua ausência; o que no nosso caso significa, basicamente, toda a vida que vem antes do nosso primeiro encontro no domingo.

- Eu nasci pequenininha. Pesava menos que um lombinho.

Eu não sei como acontece, mas o que acontece eu sei. Acontece uma vontade grande de mostrar logo quem eu sou e saber logo quem ela é. Assim, a gente já pula a fase do desconforto e do constrangimento que o desconhecido tráz e vive em compasso com a nossa familiaridade precoce. E eu quero poder fazer um carinho no cabelo dela, o quanto antes.

- Meu primeiro beijo teve gosto de esfiha.

- Credo! Minha vez. Eu morava em Brasília.

Eu vou escrevendo a sua biografia na minha cabeça. Juntando os fatos de uma vida que eu já deveria conhecer. Ela tem uma cicatriz na testa...

- Tá olhando o quê?
- ... hum?
- É a sua vez! Tá fazendo o que aí me olhando?
- Ah. Tô tirando foto. Quero uma biografia ilustrada.

Ela é tímida. Isso eu já sabia.

- Bobo... São duas horas. Já quer ir embora?
- Nunca.
- Também não. Então vai, é a sua vez.

QUE SEJA

Wednesday, November 28, 2007

É que hoje eu trago a leveza dos desnecessários.
Minha presença pode tanto ir quanto vir;
Ao gosto dos desinteresses,

Ao ritmo dos refractários.

"VEM, AH..."

Wednesday, November 21, 2007

Foi como o dueto que eu escutei certa vez. Igualzinho.
Tinha tanta beleza que eu não conseguia ouvir tudo de uma vez. Só suportava pequenos pedaços.
Um violão começava manso, mansinho. Nem percebíamos a diferença do agora para a vida antes dele. Chegava desapercebido como se sempre estivesse ali. Quando já estava me rendendo ao carinho inicial, uma palavra dita com imensa dor me retirava do transe e me roubava para a vocalista.

“Vem...”

Pedia para eu não mentir. E repetia. Eu já esquecia o violão.

“Vem...”

Intrometia-se um violino arrogante, achando-se o alvo daquele apelo choroso. Bêbado e flácido, tornava a mulher uma memória feita de coisa presente. Ele ocupava o espaço, sambando ao violão que não existia mais.
Não existia, até reaparecer me abraçando de surpresa, e o boêmio violino sumia em meio à minha perplexidade. Revelava-me o samba, aquele violão com cada corda vibrando e trazendo a poesia que eu sempre sonhava compor. Assim, sem pedir nada em troca. Me entregava palavra por palavra, que de repente invadiam a boca de outro vocalista. Um homem. Cantando com o coração emprestado da mulher que já tinha se perdido na melodia. Na mesma dor, vibrava a voz para desatar o nó da garganta. Sem sucesso.

“E agora que eu cheguei, eu quero a recompensa...”

Me vi sozinho com ele. E como ele também solitário.
O que se seguiu eu não sei descrever. Todos os moradores daquela música me rodearam, gritando a beleza do modo que podiam; sons e palavras me violando sem pudor ou coerência.

Vem ah tum tá meu menino vadio ííííí eu quero te dizer que o tum tum íííí instante de te vem ver sem mentir pra você me arrepender Dorme íííí convencer menino grande das chuvas que acolhi meu amor que paguei tumtum tum íííúúú eu quero te mostrarporqueganhei nasíííí Deus e te quero cheguei tum íííááá tum prenda pá ííí teusmeus íííá vem que cheguei ííí todo seu recompensa meus teus tum ííí dorme ííí menino tu grande

Foi como a música que eu ouvi certa vez. Assim ela me passou e eu não pude compreendê-la. A música e a minha mulher. Foi igualzinho, com uma e com outra. Queria, mas não podia amá-la assim, de uma vez. Só pedacinho por pedacinho. Minha mulher.Um mosaico de cadências, uma colcha de retalhos feitos de poesias desencontradas. Mas tão linda que me doía o peito.

EFÊME(R)A

Sunday, November 18, 2007

Minha relação com a Re durou pouco. Tão pouco que nunca soube o que vinha depois daquelas duas letras. Era Re, só. Uma loira Re.

- Re, vamos sair daqui vai?
- Não.
- Por que não?
- Acabei de te conhecer.
- Que importa? A gente se deu tão bem!
- Agora não dá. As pessoas estão olhando.
- Que importa? Ninguém nos conhece...
- Você sempre assim, qualquer coisa... – disse enquanto me lambia o rosto com a mão, me deixando com cara de idiota, sua risada escondida pela música alta.

Virou as costas e sumiu na multidão, me deixando de presente uma eternidade que nunca tivemos. E que mesmo assim me foi suficiente. Afinal, sou sempre assim, qualquer coisa...

I

Monday, November 05, 2007

Tua pele é o meu fato
Meu ser imediato
Todo o meu querer
E o teu amor barato
Vence o meu recato
Faz-me esquecer
Que a tua voz macia
Não me alivia
Do triste sofrer
Mas minha vida vazia
Por ser fraca e fria
Não quer nem saber
Toma este corpo aberto
Respira mais perto
Sente o amor meu
Deixa para trás o certo
Vamos pelo incerto
De um amor camafeu
Deixa pesar-te meu seio
E amar-te o anseio
Do meu caminhar
Sem ti eu já não mais creio
Que o ar que eu permeio
Vá me sustentar
Sem ti eu já não mais creio
que o ar que eu permeio
Vá me sustentar

II

Saturday, November 03, 2007

Vem e toca a minha verve
Como se atreve
A me violar?
Eu não sou qualquer menina
É a minha sina
Nunca mais amar
Se ao menos eu pudesse
Não ser só uma prece
De teus desejos febris
Eu faria o que eu quisesse
Te daria em quermesse
Meus anseios gris

III

Friday, October 26, 2007

Vem que você já demora
E o teu rosto cora
Com o meu dizer
Minha alma vai embora
Mesmo se te adora
Em teu triste ser
Toca-me ou me dispense
O desejo vence
Seja com quem for
Toca-me ou me dispense
O desejo vence
Seja com quem for

CAÇADOR DE BORBOLETAS

Sunday, September 16, 2007

Foi assim que a encontrei pousada: olhando para o lado oposto ao meu. Desarmada, descuidada e desapercebida de minha presença. Deslumbrante.
A moça estava sentada, esperando não se sabe o que. Ao seu lado, milagroso, um lugar vago me chamava pelo nome. E, em seus gritos ansiosos, aquele espaço vazio celebrava todo o meu futuro de senhor enamorado, que beija as rugas de sua senhorinha com orgulho (“são as memórias de todas as vezes que a fiz sorrir”) e conta aos netos sobre o incrível dia em que, tomado de coragem expedicionária, sentou-se ao lado da bela moça distraída e sussurrou-lhe um versinho decorado.
Mas no meu tempo presente, ali, observando a moça que observava o lado oposto ao meu, não havia coragem expedicionária, mas uma covardia contemplativa que me congelava os ímpetos. Qual um caçador de borboletas, temia que minha barulhenta cobiça resultasse em bater de asas e frustração. Calei minhas canções de amor e concentrei-me na fictícia tarefa de congelar aquela imagem que à minha frente descansava.
Só quem não calou foi o espaço vazio ao lado da moça. Sentindo minha hesitação, gritava qualquer coisa que eu não conseguia entender. Babava de ansiedade e a afobação atrapalhava sua dicção. Em meio àquele emaranhado de letras que, apesar do alto volume, não causavam brisa que fizesse minha futura senhorinha piscar, consegui ouvir uma frase completa:
“Agora foi há um verso atrás”*

Bastou para que eu me movesse.

Calou satisfeito e exausto, o vazio. Observava triunfante a poesia que conceberia meu futuro de rugas beijadas e carícias em cabelos encanecidos. Poesia esta que eu escrevia a passos largos e decididos, dirigidos a um banco de praça ocupado pela metade. Pela minha deslumbrante metade. Despertei a minha moça de sua ausência descuidada e, presto no falar, mas vagaroso no olhar, declamei-lhe a profecia:

“Vim trazer-lhe meu amor cativo, nossa linhagem e suas marcas de expressão.”
-- --- --- --- --- ---
*essa frase não é minha. Parece ser de uma música de uma banda chamada Insônica (http://www.insonica.com.br/). Valeu pelo empréstimo!

EXPECTADOR

Thursday, September 06, 2007

- Que fazes aí parado? – ela dá uma risada, divertida. Por que me olhas?

Espero-te pacientemente. Sempre foi assim; porque me perguntas?, eu respondo, enquanto me ajeito na cadeira.

Sua cara de interrogação me inquieta. Desejando antes emudecer, pergunto: O que te incomoda, meu amor?

Ela me encara. Ela sorri.

Nada. Só não entendo porque aqui me esperas se aqui nunca estive nem estarei.


E me deixa, parte piruetando em sua sedutora insolência.

01111111

Saturday, August 25, 2007

Olha que coisa, Jandira perdeu um dente.
Está constrangidíssima a Jandira. Demais. Ela não entende que o dente é do ladinho, só vê quem fuça o sorriso dela com muita vontade. Ela não entende. Não gosta mais de sorrir, a Jandira. Ela briga com quem conta piada. Fazer cócegas então, nem que não se contenha o atrevimento. Jandira não pode mais rir, segundo sua própria imposição. Ai de quem arrancar um sorriso da minha Jandira! Corre o risco de perder os dentes também.
Não que seja de meu interesse. Se tem uma coisa de que Jandira nunca poderá me culpar é de fazê-la sorrir.

LA FORTUNA ASSISTE GLI STUPIDI

Thursday, August 16, 2007

Calma!
Calma que cala tua alma
Calma que a alma se cala
Não fala da falha que toma
Não soma teu sangue à navalha
Não ralha, não zangue, não talha
A pele que cubra o que valha

VÔO

Wednesday, August 08, 2007

Eu entrei na sala muito nervoso. Era a minha estréia. Eu nunca havia antes assistido o nascimento de um futuro brilhante.
Sentei no lugar guardado pelo meu próprio nome. Meu nome. Eu tinha um lugar naquela sala. Ao pensar nisso, sorri pela primeira vez naquela noite.
No palco, um casulo é revelado pela luz. Nele, ainda oculto, minha borboleta era adivinhada por todos os presentes. Não era nenhuma proeza de nossa parte, era naquele casulo que caia o único facho de luz em quilômetros. Ela não poderia estar em qualquer outro lugar. E só dela poderia sair tanta luz.
Com o rompimento do casulo, ouço a primeira rufada de sangue tingindo as paredes de vermelho. Não seria a única. E não era qualquer vermelho. Era o vermelho que toma conta dos olhos depois do choro e da face antes do amor. Minha borboleta também previa o futuro, olhem só! E do casulo surgiu, indecorosa, minha poetisa-borboleta e sua verborragia inebriante. Sorri pela segunda vez, enquanto a escutava; senti-me em casa novamente.
Mais sangue na parede. Aquela platéia não se dava conta, mas estava assistindo a um duelo. Minha borboleta voava como a pequena gladiadora que é, escalpelando com sua espadinha de luz todas as camadas de pele calejada que recobria nossos sentidos. Cortava e cortava até o sangue espirrar; nítida prova de ter alcançado a última camada de nossas peles. Única amostra de que nossos corações ainda batiam.
Quando todos já choravam de dor e clamavam por clemência, minha borboleta guardou sua espada. Dedicou-se então ao tratamento dos feridos. Pousava de coração em coração, pingando de suas lágrimas sinceras em nossas veias, diluindo todo esse sangue espesso e escuro que ainda nos restava. Precisávamos ser leves para compreendê-la.
Foi então que me perdi completamente. Suas lágrimas em minhas veias tiveram o poder de me retirar da realidade, me elevar aos céus da criatividade e eu também me vi borboletando. Ah, minhas asas... Queria que tivessem visto minhas asas. Mas exaustos pela batalha, incautos por natureza, a platéia não se deu conta do que acontecia.
Só acordei com o que pensei serem os aplausos. Levantei-me para me juntar ao coro dos resgatados, mas só para descobrir que não eram aplausos que eu escutava e também não era o choro que me escondia as feições. Na verdade, chovia torrencialmente.
Descobri-me ao ar livre; minha borboleta tinha aprontado mais uma das suas. O teto da sala desaparecera. Não sei se arrancado, não sei se fugido. Aposto que saiu calmamente, abrindo espaço para que as idéias de minha borboleta pudessem rodopiar. Olhei para o céu na mesma hora, era ali que estava o verdadeiro espetáculo que ela havia nos preparado.
Voltei minhas atenções para dentro da sala quando os verdadeiros aplausos quebraram o silêncio do escuro. Surpreendeu-me a inversão de papéis que se seguiu. Não era a minha borboleta que se curvava em sinal de agradecimento. Era a platéia que estava curvada em uma postura de adoração. Minha borboleta sorriu para mim, que a admirava inconteste. Eu sorri de volta, e pela última vez naquela noite, simplesmente porque ela havia me salvado.Foi com esse sorriso na cara que ela partiu. E foi o mesmo sorriso que eu a entreguei que se viu banhado novamente. Agora não era mais a chuva, eram minhas lágrimas. Não eram lágrimas de despedida. Eram lágrimas antecipadas do nosso reencontro, banhando a certeza de que eu também sabia voar.

PUTA COMO A PRÓPRIA FÉ

Wednesday, August 01, 2007

Falava-me tanto das próprias virtudes
Que nossas conversas tinham-me o peso da prece
E eu, perdido em meus desejos rudes
Escutava-a, como se despindo-a não estivesse.

Deitada, em seu descanso bovino
Limpava o sexo com lenços de nariz
Depois de usá-lo com esforço ferino.
- Dizia-se casta, minha crente meretriz.

Já escrevi-lhe um soneto de amor
Que ela até hoje recita à voz rouca
De tanto gemer com quem for.

Ajoelhada, reza nua e louca
E se não fala a deus em louvor
É pelo falo que cala sua boca.

 
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