O RABISCO E A ESPERA

Wednesday, November 04, 2009

Decorei com muito esmero a minha clausura
Me vesti com os meus trajes de ficar
Estiquei meus panos sobre a cama dura
Me joguei, enfim, no eterno dormitar.

Não me serve de mais nada estar desperto
São meus dias de uma espera recorrente
Estou só, mas se me olhassem bem de perto
Me encontravam nem tão triste, nem contente.

Eu aguardo é pelo coração perdido
Dele eu nunca soube, tão de mim caído
Nem boatos... nunca fatos. Só calar.

E enquanto dele não me vem notícias
Formo um dito de umas letras fictícias:
"Nada é feito sem o peito no lugar".

COLCHÃO D`ÁGUA

Saturday, September 12, 2009

Toda noite chora triste a Terezinha. Toda noite, antes de dormir. Noite sim, também a que vem, Teresinha deita o rosto no travesseiro e deságua o peito fora pelos olhos. É rotina, como o banho pelas manhãs e a escova pelos dentes. É preciso que ela chore, pra limpar os olhos das coisas que vê ao longo do dia. Como louça suja, como as mãos da rua, ela chora e lava a vista. Não que seja mais fácil por ser rotineiro. Dói. Toda vez igual, dói que a cansa e o sono vem.
Essa noite chora triste a Teresinha. Toda noite, antes de dormir. Logo, logo ela se cansa e a dor apaga os olhos. Se a minha vontade importasse, não viria o sono com a dor. Se a minha vontade importasse, cada gota de seu choro pingaria a poesia de ninar que fiz pra ela. Viria dali o repouso.

Calma, que o Sereno
Sempre lava
As manhãs.

Seja no dia
Seja no peito
Sempre lava
As manhãs.




Sei como é, Terezinha. Sei da falta que faz a serenidade. Dorme, que amanhã tem menos.

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Monday, August 31, 2009

Só sei explicar se for assim:
A vida às vezes me parece aquelas flores de “bem-me-quer, mal-me-quer”
Porque mesmo que eu ganhe,
Tudo o que eu tenho no final é uma ex-flor
Com uma mísera e solitária pétala.

UNI DUNI

Wednesday, July 22, 2009


Foi-se o tempo em que eu vivia
Vista larga de alegria
A notar tudo o que é.

Enxergava atrás do escuro
Via - pasmem! - o futuro
Me engasgava tanta fé

Dava passos sempre retos
Me levavam os pés diletos
Me guiava a vista clara.

Meu destino estava perto
(De mentira) estava certo
Chegaria a vida rara!

Mas andar demais fadiga
Esperar dói a barriga
E chorar cerra o olhar

Estanquei num certo canto
Que chamei "Canto do Pranto"
Que é pra sempre magoar

Lá deixei parado o passo
Meu olhar tornou-se crasso
Nunca mais andei ou vi.

Hoje me pesa a preguiça
A vontade sempre enguiça
Pra onde eu ia, me esqueci.

Tanto tempo sem notar-me
Tanto, tanto sem mirar-me
Que a memória andou de ré.

Se eu me volto para o chão
Minha cansada visão
Não me diz qual é o meu pé.

PERDI

Thursday, July 09, 2009

Acontece que a poesia não rasteja
Sobrevoa
Observa, longealada
Meu nariz riscar o chão.

VALSINHA NO LUGAR

Wednesday, June 17, 2009

Eu não sei
Se é a dor que não se faz passar
Ou se é o medo que me faz pensar
Melhor eu sigo se eu ficar aqui.

Não
Já digo não
Não traga as minhas frases preferidas
Não cante a solidão
Não rabisque meus ouvidos

Eu sei que a chuva cai
Eu sei que a nuvem vem ficar de vez
Pra onde eu corro, cai
E a fuga, nessa água, se desfez

Eu pensei
Que eu teria um lugar pra ficar
Mas não sabia que esse tal lugar
Se afogaria pra fugir de mim.

Estar sozinho dói
Sobrou-me a Ilha de Semaisninguém
Mesmo curando, dói
Pois abandono é o que mais se tem

Sim
Sei que é assim
Sempre disseram pra querer bem pouco
Mas eu não via fim
Pro meu querer atrevido

Hoje eu sei
Que o que me perde é o meu caminhar
Não há mais nada pra se procurar
Melhor eu sigo se eu ficar aqui.

TODO O PROBLEMA MORA NA MINHA GOTEJANTE PERDA DO ROMANTISMO

Thursday, May 14, 2009

Porque é do mais notório e público saber
que, por mais que outros venham dizer
num excesso de boa fé e de inocência,
não existe (e, perdoe essa certeza
que machuca quando bate mas
ajuda quando se instala e fica)
e, não existindo, traz consigo
uma perda irreparável para
tudo o que for do coração,
não existe a menor nem
a mais remota chance
de um dia se acabar
um romance e por
fim o sujeito que
antes morria de
paixão e arfava
sem razão por
cantos e por
recantos e
disparos
decidir
enfim
se re
apai
xon
ar
.

AO AMOR, TUDO O QUE LHE CABE

Monday, April 13, 2009

É que eu sinto raiva passageira
Uma espuma que me enche o peito
Feito a saliva dos meus sonhos ruins
Que se beijam aos despudores
Como amantes, lambuzando o leito.
É um roer no ventre e no abraço
Um cansaço, o impulso de chamar-lhe nomes
Disfarçados em meus versos de querer tão bem.
É uma lama que dilata aos poucos
E me ocupa a mente, inunda ouvidos
Pra depois, na boca, ser areia.

É claro que a amo, mas não é só:
É a saudade de sentir-lhe inteira
Com a vontade de partí-la em cacos.

AQUÁRIO

Tuesday, March 17, 2009

Quase nunca eu choro
Sempre seco
Seco fora
Água dentro
Gasta do represamento
Feito alma parada
Bóia o meu sentimento
Sinto muito, nada sinto.
Vez em quando em quando
Jogam pedra
Pedra jogam
Água adentro
Causa um leve agitamento
Leve, pouco
Pouco leva
Nada mexe
Nem se agita a alma parva
Pouco lava
Fora a pedra
E o resto
que é mais nada.

ESTRANGEIRO

Monday, February 23, 2009

Vem pra cá
Distante não faz calor
Tão longe estás, amor
Tão longe de se tocar
Traz pra mim
Um pouco de aflição
Arpejo e uma canção
Que eu só sei amar assim
Vou chorar
Prometo me entristecer
Pra ninguém mais me querer
Até ver você chegar
Se no fim
Barulho pra me acordar
Teu choro pra misturar
Na água que sai de mim
Deixe estar
Nunca sei o que dizer
Se você aparecer
Me ocupo em te amar.

MEU CAMPO DE GIRASSÓIS

Saturday, January 17, 2009

Até o dia em que saiu nu e não encontrou ninguém na rua. Ninguém. Decepcionado com a falta do reboliço que pretendia causar, caminhou pela vizinhança em busca de testemunhas. Caminhou quilômetros sem encontrar ninguém pelo caminho. O sol não agredia sua pele, mas chegou a pensar que teria escolhido um bom calçado se soubesse que enfrentaria tamanha caminhada. “Não, que eu esteja nu até a planta do pé”, e não mais considerou a idéia.
Chegou à outra ponta da cidade e lá, como cá, não havia ninguém. Gritou, chamando nomes aleatórios na esperança de que alguém confundisse o chamado com algo importante e desse as caras na rua. Mas, das casas ao redor, ele só recebia de volta o silêncio inerte das portas fechadas. Aquela indiferença mais o intrigava que o incomodava e, por produto inesperado daquele silêncio, surgiu uma sensação intensa de que estava sendo desafiado. “Não é possível que não me vejam aqui nu em pêlo”, pensou sorridente, “estão a me pregar uma peça.” E, como se estivesse numa brincadeira de esconde-esconde, começou a revirar cada canto da cidade. Invadiu casas, olhou embaixo das camas e dentro dos armários, abriu gavetas e revirou malas, explorou latrinas e fornos. Entrou em cada casa existente na cidade e não encontrou um par de olhos que se dignasse a presenciar sua nudez.
Irritou-se. Que brincadeira era aquela? Quem haveria de ter lhe adiantado os passos do insulto nu e avisado a tudo e a todos que escondessem suas vistas? Terminava de confeccionar sua lista de suspeitos quando se deparou com a única casa da cidade que ainda não tinha revistado.
A porta desta, como das outras, estava entreaberta, como se os seus ocupantes tivessem batido em inesperada e não planejada retirada. Repetiu a revista que tomou quase todo o seu dia e, uma vez mais, deu-se com uma casa desabitada. Nem as fotos estavam dentro de seus porta-retratos. Até os espelhos haviam fugido das paredes. A solidão que habitava era tamanha que, quando viu que amanhecia e resolveu voltar para casa, teve que olhar para baixo para ver o próprio corpo nu e recordar como era a forma humana que esteve buscando desde o dia anterior.
Chegou em casa e vestiu seu melhor traje: um terno herdado do pai falecido havia 3 semanas. Juntou o que pode em duas malas e partiu, decidido a deixar pra trás a cidade deserta que o deixara sozinho. Feliz por não ter que se despedir de ninguém, abriu a porta de casa. Sua viagem, no entanto, durou apenas três passos além da porta de casa. Ao abrir a porta que revelava a rua, deixou as duas malas que carregava caírem num soco surdo no chão da varanda, sem saber se ria de nervoso ou se gritava de alegria. Na calçada, enfileirados, todos os habitantes da cidade estavam nus, deitados no chão, com suas barrigas voltadas para o sol que se colocava alto no céu, como que para observar satisfeito seu campo de girassóis libidinosos.
O homem deu os três únicos passos que haveria de dar para fora de casa e, derrotado, fraco e envergonhado, afrouxou a gravata e abriu o primeiro botão da camisa, preparando-se para ficar admirando aquela paisagem eternamente.

PRA TE FAZER DORMIR

Wednesday, December 17, 2008

Novena dirigiu-se à praça principal com seu pavê. Em Poema, cidade de Novena, era tradicional a troca de sobremesas depois do almoço de domingo. As pessoas saiam pouco a pouco de suas casas, pequenos pacotinhos de saciedade, caminhando a passos lentos de digestão e carregando seus pratinhos de doces. Voltavam para casa com o quitute alheio e com o compromisso de devolver o recipiente na segunda-feira pela manhã.
Poema não era populosa, quase cabia numa praça; espaço pequeno, visto que praça, sendo, caso o contrário, parque, bosque ou algo que valha. Embora isso trouxesse vantagens para o prefeito, para a polícia e para o carteiro, era um problema para moças solteiras como Novena. Faltavam bons pretendentes. Poema, cidade sensível e, portanto, majoritariamente feminina, tinha na figura masculina uma raridade disputadíssima. Todas as jovens em idade de casamento se viam obrigadas, caso não quisessem acabar na secura da velha solteirice, a comparecer a cada evento social para se exibirem e lembrarem aos cobiçados solteiros poemenses de que ainda estavam disponíveis. A troca de sobremesas na praça principal era um desses eventos.
Está claro agora o porque da pressa com que se dirigiu Novena à praça principal. Se Deus ajuda quem cedo madruga, Santo Antônio não teria porque não ajudar quem cedo se colocasse no gramado da praça. Tinha a menina os olhos em Carlos, solteiro da vez na cidade, filho do boticário e exímio jogador de peteca, esporte municipal.
Mas enquanto seus olhos procuravam o atleta, seus ouvidos foram surpreendidos por uma voz que declamava em meio ao barulho dos talheres:
“... que te case os lábios com meus beijos, que me dê em mãos os teus desejos...”
Passou seus olhos da procura por Carlos para a busca pelo trovador. De onde sairiam aqueles versos, que chegaram tão íntimos aos seus ouvidos que fizeram Novena se sentir tocada de maneira imprópria?
“...e encontras no meu peito o quarto nosso, que eu me instalo em teu abraço enquanto posso...”
Novena não precisou de mais. Jogou o pavê por cima do ombro e correu atrás da voz que já amava. Sabia que não era de Carlos ou de qualquer outro solteiro conhecido em Poema. Era frase nova, desconhecida. Era o casamento que esperava.
“... que eu te juro não chorar, senão de amor...”
Ela corria tanto que a voz ditando os versos começou a distorcer-se. Cada vez mais aguda, a fala foi tornando-se incompreensível, mas ainda perfeitamente localizável. Corria cada vez mais rápido, competindo contra solteiras que ela não via, mas que jurava estarem também correndo em direção ao seu trovador. E foi na beirada da praça que ela encontrou.
Clara estava sentada num banco, prostrada sobre um toca-fitas, ouvindo as mensagens de um distante namorado. A moça não se lembra muito do rosto dele; há anos partiu com o pai doente em busca de melhores ares para o pulmão. Tudo o que tem são os versos gravados em fitas que chegam semanalmente pelo correio. E uma saudade que dói um bocado.
“... que eu te juro não chorar, senão de amor.”
Ela nem se lembraria do nome do rapaz, caso Novena perguntasse. Mas Novena tinha um nó tão grande na garganta que qualquer pergunta sairia perdida no pranto. Resolveu sentar-se, calada, ao lado de Clara, e lá deixar-se ficar. Solteira.
Em Poema nunca houve amor feliz.

SECO

Thursday, November 27, 2008

Daqui de onde eu vejo
Daqui dessa saudade
Me falta paisagem...
Às vezes um bocejo
Às vezes, caridade
Me sinto uma bobagem...
Não sinto quase nada
Não sou pra quase nada
Nem sei se sou verdade...
É sempre um pulso lento
Sempre a falta de vento
Pra sempre a mesma idade...
Já fui muita vontade, gritei meus mil lampejos
Agora eu choro calada
De todos meus desejos, sobrou-me a crueldade
Viver caiu no esquecimento...
Faz tempo, eu não me vejo
De mim tenho saudade
Sou mera paisagem...

FISIOLOGIA DO CORAÇÃO PARTIDO

Saturday, October 25, 2008

“Os peixes são os animais que, com sistema circulatório desenvolvido, têm o coração mais simples”, já me dizia a apostila nos tempos de cursinho. Um átrio, um ventrículo, só. Sem mais delongas. O sangue entra venoso, passa pelas brânquias, vira arterial e só se atreve a voltar ao coração quando se gasta em venoso novamente. Simples e objetivo; esse é o coração do peixe.

Tentei explicar à minha menina que o processo evolutivo fez nosso coração tão complicado. Falei da complexidade que é ser governado por um órgão com dois átrios, dois ventrículos, veias e artérias à balde e o sangue indo e revindo hesitante, sem coragem de ganhar o corpo de uma vez. Não tinha como: meu coração do jeito que era só dava para ter amor inquieto. Mas ela - lástima! - era bem menina mesmo e, em matéria de coração, ainda estava no primário brincando de ligar os pontos. Ela reclamava do meu jeito imprevisível; não lhe dava segurança. Foi embora atrás de paz e partiu-me o coração.

Eis que hoje me aparece a tal menina, já menos escolar e querendo retomar o meu amor de ir-revir. Ela quer o amor de coração complexo, de juras e repentes carinhosos. Ora vejam, quer que eu ame como amei há muito tempo.

Sinto muito, minha menina, mas o meu amor mudou. Não é mais aquele amor tão complicado de mamíferos e aves. Não é mais amor complexo de circulação indecisa e barroca em seus rococós. Meu amor agora é amor de coração partido ao meio, um átrio, um ventrículo, só. É amor simples e objetivo.

Meu amor agora é amor de peixe.

AMORATÓRIA

Tuesday, October 21, 2008

Difícil é declamar a poesia.
As entonações nunca dão certo
As pausas me confundem
E os sentidos se perdem:
Seu eu falo de rosas (quase sempre)
Me entendem violetas.
Violetas...
E seria eu capaz de poetar sobre violetas
Tendo rosas por aí?
Difícil declamar a poesia.
Melhor pra mim deixá-la em segredo no papel.

NAQUELE PEITO, TUDO O QUE SE PLANTA, DÁ

Thursday, October 02, 2008


Brotou de repente no meio da vista
A Flor imprevista a me desalinhar
Nasceu tão silente quanto uma incerteza
Causou-me estranheza de fazer gritar
Mas abri a boca e saiu-me mil juras
Galantes canduras sem nenhum pudor
Das coisas que disse, só de uma me lembro
“Te esposo em dezembro” e sorriu-me a Flor
Fartei-me das valsas de corpos em claro
Dançando, não raro, ao som do relento
Larguei toda a vida que me circundava
Na hora bastava o meu sentimento
Mas pouco durou a minha valsinha
A Flor não me tinha o mesmo amor
Bem pouco durou a minha quimera
Findou Primavera, morreu-me a Flor.

LOGO VOLTA

Thursday, September 25, 2008

nasaudadequeeusintoprendoapontadesseversoqueseestendecontroversoquetebuscaenquantomintoquenãoachoumamaldadeestartãodistanteassimdopoetaqueteescrevesentimentosbematadospelaspontasamarradosesticadosparatidouapontaquemesobrapraamarrarestuasaudadenasaudadequeestáaqui

A DAMA E O CAVALHEIRO

Wednesday, September 03, 2008

Quando parar essa canção
Desarmo o braço e você sai
Olho pra baixo e conto os passos
De três em três você se vai
Na valsa triste que te leva
Minha mão só se solta e cai.

Mas calma, ainda toca a banda
Você ainda é meu par
Nós dançaremos lentamente
Que é pro ar não se agitar
Pois sei, só o vento que te leva
Antes da música acabar.

Quando eu ficar sozinho ao centro
Desse salão que te perdeu
Não foi você que foi embora
Foi o salão que te escondeu
Eu fecho os olhos para sempre
Finjo que o baile escureceu

Quando parar essa canção
Desarmo o braço e você sai
Nós dançaremos lentamente
Que é pro ar não se agitar
Eu fecho os olhos para sempre
Finjo que o baile escureceu

"...E CHORA"

Thursday, August 21, 2008


Horário livre agora só amanhã, infelizmente. Tá uma temporada bem puxada pra pessoas como eu, nesse ramo da consolação. O povo ta que se angustia de uma maneira que eu quase não venço atender todo mundo em horário comercial. Sempre dou uma esticada até as 18 horas. Não que eu esteja reclamando, fazia tempo que eu não tinha lucro! Viu o preço do papel higiênico como ta? Pois é, antes eu só trabalhava com aquele papel rosa. Clientela reclamava, mas o que eu podia fazer? Agora, chegadas as vacas gordas, só trabalho com folha dupla extra macia.
Seu Manoel, muito prazer. Passa amanhã que te atendo. E avisa os amigos com problemas: dor no coração, aperto no âmago, suspiro crônico, é comigo mesmo. Vinte minutos de colo mais pedaço de papel pra secar as tristezas por 50 centavos de real. Minha pele tá curtida, mas o colo ainda é bom! E outra, agora só trabalho com folha dupla extra macia da melhor qualidade. O preço que cobro tá quase uma caridade.
Veio hoje a Dona Jura, mulher do carteiro, sabe? Pois é, ela é das costumeiras. Me paga no boleto mensal. Sofre de marido ausente, coitada. É o marido pernando na rua e ela soluçando no meu colo. Mas eu não reclamo não. A gente tem que trabalhar; na idade que eu tô, se eu parar eu morro. Liga pra Dona Jura que ela te fala bem de mim.
Passa amanhã que eu te atendo, porque hoje o dia já saturou. Uso amaciante na calça, já te falei? Só uso calça velha que é mais maleável pro rosto do freguês. Deita aqui pra ver, deita? Não? É quase um travesseiro de pelica. Mas vem amanhã que eu te mostro. Cinqüenta centavos o colo e o lenço. Passa amanhã que te atendo, hoje não dá mais.

DECA SIBILO

Monday, July 28, 2008

Eu queria escrever belo poema
Pra menina que tem meu coração
Eu queria pintar de alfazema
Meus dizeres de espantar solidão
Prometi versos vastos bem medidos
Decassílabos, pra ela dançar
Só pedi que na paga do cerzido
Fosse um beijo na boca me alcançar
Pois de tão confiante o meu ditado
Foi-me pago o poema de antemão
Antes mesmo de saber resultado
Mariana beijou-me o amor bufão
Tu dirás: “Mas que sorte, seu danado
Ganhas prenda em juras de ocasião”
Pois dirás por não saberes o fardo
Que carrego nas costas desde então
Desde o beijo que me tomou, amada
Mariana me cobra o pagamento
Mas eu já não consigo rimar nada
Foi-me embora no beijo o pensamento
Minha moça está insatisfeita
Por não ver ser honrado o combinado
Vai na vida ficando rarefeita
Mariana vai me pondo de lado
Me disseram que o meu triste sofrer
Era só um problema de expressão
Que era só tal problema resolver
Que eu teria de volta o meu quinhão
Acontece que eu já espremi com força
Pra ver o que do peito me saía
E não importa o que eu faça, o quanto eu torça

Não sai mais uma gota de poesia.

 
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