DELAÇÃO PREMIADA

Saturday, February 27, 2010

Apresento-me a ti (e beiro o enfarte)
Porque sei que é dura a punição
A quem quer que se atreva a enganar-te
Ou fugir de tua imposição
Fiz promessa: por bom tempo amar-te
Por bom tempo (para sempre, não)
Da minha vida, (pois tu não fazes parte)
Tu mandaste, aceitei abrir mão
Fui fiel; declarei meu estandarte
Ter-te amor, só a ti (preso ao chão)
E por fim, proibiste a minha arte
“Nunca mais versos no coração!”

Fui honesto até este momento
Em que faço verso do tormento
De te amar sem ser nunca o que sou.

Denuncio a infração (que ousadia!)
Acabei de fazer poesia
De amor; nosso amor que acabou.

EU

Thursday, February 18, 2010

Sinto que caí em desuso.

NÃO USA CHINELO QUE CAI DO PÉ

Thursday, January 14, 2010




O certo seria um mal deitar e já levantar-se. Flutuando a 30 cm do chão do quarto, abrir a porta mal trancada da casa e ganhar o lado de fora. Os olhos podem estar abertos ou fechados, é facultativo. Quem olha, nesses casos, é o umbigo. Verdade; é o umbigo o mais próximo que há daquele aperto no estômago quando sentimos que o que há já não basta. Ganha-se o mundo e mira-se o umbigo no além, abrindo os braços à meia altura pra sentir o vento que vai ficando pra trás.
O certo seria ter mapas decorados. Colocar na mente o caminho a seguir e confiar que não há curva que confunda o passeio. Na dúvida, o certo é uma linha só reta que garanta uma ida com volta e a total desnecessidade dos mapas. Pijama mal tem bolso.
Bem certo é ter memória fotográfica e habilidade pra ver tudo o que vai passar muito rápido pelas laterais. Alterne o lado direito com o lado esquerdo, virando o pescoço repetidamente. Não tem nada que não mereça ser visto, nas direitas e esquerdas. Tivesse deus dado aos homens os olhos no lugar das orelhas e as orelhas onde julgasse ser mais prático, eu não precisava dar essa recomendação. Em todo caso, as dele não devem funcionar, pois eu já pedi e as minhas não mudaram de lugar. O certo é fazer uso do pescoço.
E durante a viagem, bem certo é manter os pés fora do chão. Não deixe pegadas; caso descubra algo brilhante que não queira dividir com ninguém, as pegadas seriam imprudentes.
Agora, se quer ter o certo, ao retornar não perca a viagem da mente. Não subestime a utilidade de qualquer coisa que trouxer do caminho. Guarde num canto e deixe brotar. Mas não fique encarando, porque quando ficamos assistindo, nem o leite nem as ideias fervem.

Deixe um copo de água do lado da cama. Quem é sonhador sempre acorda cansado.

BEM ME LEMBRO...

Friday, January 01, 2010

Nunca entendia a Dona Clara. Mas eu era só uma criança.
Viúva há tempos, já tinha mais tempo de saudade do que de casada. Não sei como era antes, mas, desde quando possa me lembrar, ela sempre fez questão de estar sozinha. Não se via Dona Clara em rodas de conversa no portão de casa, nas quermesses que a diocese organizava todos os junhos, em batizados, enterros, confusões ou simplesmente compondo a multidão. Ela não saia muito na rua e o pessoal da nossa cidade quase se esquecia de pensar nela.
Quase, porque era nos bailes do fim de ano que o povo da cidade se lembrava de Dona Clara. Ela aparecia bem decorada, com suas maquiagens e as pérolas nas orelhas e em volta do pescoço. O cabelo era preso num arranjo de fios brancos e tiara. Impecável, a Dona Clara no salão. E todos os olhos se voltavam para ela; os sorrisos se abriam, mais como reação de uma lembrança que julgávamos esquecida e que, repentina, voltava à mente. Sim! Dona Clara, minha gente! Lá vai Dona Clara; quanto tempo eu não a via!
E sozinha Dona Clara se sentava bem à beira da pista de dança, a observar os casais dançando os boleros e baladas que a banda regional tocava. Sozinha. Ninguém nunca lhe dirigia a palavra. E eu ficava sentado a observar a Dona Clara, até que ela fosse embora com um ar de missão cumprida.
Foi assim todos os anos, menos aquele em que um garoto resolveu tirá-la pra dançar. Eu estava sentado, ocupado na minha tarefa de guardar Dona Clara do outro lado do salão, quando vi um garoto engravatado se aproximar dela. Não sei se por pena, por curiosidade ou simplesmente para fazer graça, mas o garoto resolveu romper com a tradição e estendeu a mão à Dona Clara.
Me lembro que banda parou de tocar. As luzes do salão se apagaram e apenas um foco se acendia para destacar a senhora e o garoto.Um rufar de tambores se iniciou, enquanto o baile todo voltou sua atenção para Dona Clara, esperando sua sentença. Uma mão estendeu um microfone na altura da boca da senhora e, quando os tambores se silenciaram, Dona Clara declarou:

“Vai lá, meu bem, que eu sou de olhar, não de participar.”

O menino foi embora constrangido, a banda voltou a tocar e o baile tratou de esquecer-se do ocorrido. Dona Clara foi embora e nunca mais se soube dela.
Eu não entendia mesmo a Dona Clara quando eu era criança. Só fui mesmo entender quando descobri que eu também sou de olhar, não de participar. Mas então já não tínhamos bailes, nem boleros e, muito menos, Dona Clara.

DE AMOR

Tuesday, December 01, 2009

Daqueles sorrisos que destes
Tem um que grudou na visão
E agora não importa a paisagem
Tem lábios na composição.

Se escrevo um bilhete de amor
Tua boca já está no papel
Ditando os versos que queres
Pedindo uma rima com céu.

Não adianta que eu feche os meus olhos ou que me apaguem a luz
Quando eu penso em tua boca, menina, acende tudo o que é breu
Não consigo chorar de saudades quando você não está
Pros teus lábios escorre o meu choro e o meu pesar vira teu.

Um rosto que a mim se apresente
Já tem seu sorriso emprestado
Qualquer outro amor que eu tenha
Tem beijo do seu, decorado.

Eu já tive você inteirinha presente no meu olhar
Hoje eu só tenho um sorriso na vista e a falta no coração
Ai, se Deus me tivesse piedade me dava o teu restante
Pra grudar tua cabeça no meu colo e o teu seio na minha mão.

O RABISCO E A ESPERA

Wednesday, November 04, 2009

Decorei com muito esmero a minha clausura
Me vesti com os meus trajes de ficar
Estiquei meus panos sobre a cama dura
Me joguei, enfim, no eterno dormitar.

Não me serve de mais nada estar desperto
São meus dias de uma espera recorrente
Estou só, mas se me olhassem bem de perto
Me encontravam nem tão triste, nem contente.

Eu aguardo é pelo coração perdido
Dele eu nunca soube, tão de mim caído
Nem boatos... nunca fatos. Só calar.

E enquanto dele não me vem notícias
Formo um dito de umas letras fictícias:
"Nada é feito sem o peito no lugar".

COLCHÃO D`ÁGUA

Saturday, September 12, 2009

Toda noite chora triste a Terezinha. Toda noite, antes de dormir. Noite sim, também a que vem, Teresinha deita o rosto no travesseiro e deságua o peito fora pelos olhos. É rotina, como o banho pelas manhãs e a escova pelos dentes. É preciso que ela chore, pra limpar os olhos das coisas que vê ao longo do dia. Como louça suja, como as mãos da rua, ela chora e lava a vista. Não que seja mais fácil por ser rotineiro. Dói. Toda vez igual, dói que a cansa e o sono vem.
Essa noite chora triste a Teresinha. Toda noite, antes de dormir. Logo, logo ela se cansa e a dor apaga os olhos. Se a minha vontade importasse, não viria o sono com a dor. Se a minha vontade importasse, cada gota de seu choro pingaria a poesia de ninar que fiz pra ela. Viria dali o repouso.

Calma, que o Sereno
Sempre lava
As manhãs.

Seja no dia
Seja no peito
Sempre lava
As manhãs.




Sei como é, Terezinha. Sei da falta que faz a serenidade. Dorme, que amanhã tem menos.

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Monday, August 31, 2009

Só sei explicar se for assim:
A vida às vezes me parece aquelas flores de “bem-me-quer, mal-me-quer”
Porque mesmo que eu ganhe,
Tudo o que eu tenho no final é uma ex-flor
Com uma mísera e solitária pétala.

UNI DUNI

Wednesday, July 22, 2009


Foi-se o tempo em que eu vivia
Vista larga de alegria
A notar tudo o que é.

Enxergava atrás do escuro
Via - pasmem! - o futuro
Me engasgava tanta fé

Dava passos sempre retos
Me levavam os pés diletos
Me guiava a vista clara.

Meu destino estava perto
(De mentira) estava certo
Chegaria a vida rara!

Mas andar demais fadiga
Esperar dói a barriga
E chorar cerra o olhar

Estanquei num certo canto
Que chamei "Canto do Pranto"
Que é pra sempre magoar

Lá deixei parado o passo
Meu olhar tornou-se crasso
Nunca mais andei ou vi.

Hoje me pesa a preguiça
A vontade sempre enguiça
Pra onde eu ia, me esqueci.

Tanto tempo sem notar-me
Tanto, tanto sem mirar-me
Que a memória andou de ré.

Se eu me volto para o chão
Minha cansada visão
Não me diz qual é o meu pé.

PERDI

Thursday, July 09, 2009

Acontece que a poesia não rasteja
Sobrevoa
Observa, longealada
Meu nariz riscar o chão.

VALSINHA NO LUGAR

Wednesday, June 17, 2009

Eu não sei
Se é a dor que não se faz passar
Ou se é o medo que me faz pensar
Melhor eu sigo se eu ficar aqui.

Não
Já digo não
Não traga as minhas frases preferidas
Não cante a solidão
Não rabisque meus ouvidos

Eu sei que a chuva cai
Eu sei que a nuvem vem ficar de vez
Pra onde eu corro, cai
E a fuga, nessa água, se desfez

Eu pensei
Que eu teria um lugar pra ficar
Mas não sabia que esse tal lugar
Se afogaria pra fugir de mim.

Estar sozinho dói
Sobrou-me a Ilha de Semaisninguém
Mesmo curando, dói
Pois abandono é o que mais se tem

Sim
Sei que é assim
Sempre disseram pra querer bem pouco
Mas eu não via fim
Pro meu querer atrevido

Hoje eu sei
Que o que me perde é o meu caminhar
Não há mais nada pra se procurar
Melhor eu sigo se eu ficar aqui.

TODO O PROBLEMA MORA NA MINHA GOTEJANTE PERDA DO ROMANTISMO

Thursday, May 14, 2009

Porque é do mais notório e público saber
que, por mais que outros venham dizer
num excesso de boa fé e de inocência,
não existe (e, perdoe essa certeza
que machuca quando bate mas
ajuda quando se instala e fica)
e, não existindo, traz consigo
uma perda irreparável para
tudo o que for do coração,
não existe a menor nem
a mais remota chance
de um dia se acabar
um romance e por
fim o sujeito que
antes morria de
paixão e arfava
sem razão por
cantos e por
recantos e
disparos
decidir
enfim
se re
apai
xon
ar
.

AO AMOR, TUDO O QUE LHE CABE

Monday, April 13, 2009

É que eu sinto raiva passageira
Uma espuma que me enche o peito
Feito a saliva dos meus sonhos ruins
Que se beijam aos despudores
Como amantes, lambuzando o leito.
É um roer no ventre e no abraço
Um cansaço, o impulso de chamar-lhe nomes
Disfarçados em meus versos de querer tão bem.
É uma lama que dilata aos poucos
E me ocupa a mente, inunda ouvidos
Pra depois, na boca, ser areia.

É claro que a amo, mas não é só:
É a saudade de sentir-lhe inteira
Com a vontade de partí-la em cacos.

AQUÁRIO

Tuesday, March 17, 2009

Quase nunca eu choro
Sempre seco
Seco fora
Água dentro
Gasta do represamento
Feito alma parada
Bóia o meu sentimento
Sinto muito, nada sinto.
Vez em quando em quando
Jogam pedra
Pedra jogam
Água adentro
Causa um leve agitamento
Leve, pouco
Pouco leva
Nada mexe
Nem se agita a alma parva
Pouco lava
Fora a pedra
E o resto
que é mais nada.

ESTRANGEIRO

Monday, February 23, 2009

Vem pra cá
Distante não faz calor
Tão longe estás, amor
Tão longe de se tocar
Traz pra mim
Um pouco de aflição
Arpejo e uma canção
Que eu só sei amar assim
Vou chorar
Prometo me entristecer
Pra ninguém mais me querer
Até ver você chegar
Se no fim
Barulho pra me acordar
Teu choro pra misturar
Na água que sai de mim
Deixe estar
Nunca sei o que dizer
Se você aparecer
Me ocupo em te amar.

MEU CAMPO DE GIRASSÓIS

Saturday, January 17, 2009

Até o dia em que saiu nu e não encontrou ninguém na rua. Ninguém. Decepcionado com a falta do reboliço que pretendia causar, caminhou pela vizinhança em busca de testemunhas. Caminhou quilômetros sem encontrar ninguém pelo caminho. O sol não agredia sua pele, mas chegou a pensar que teria escolhido um bom calçado se soubesse que enfrentaria tamanha caminhada. “Não, que eu esteja nu até a planta do pé”, e não mais considerou a idéia.
Chegou à outra ponta da cidade e lá, como cá, não havia ninguém. Gritou, chamando nomes aleatórios na esperança de que alguém confundisse o chamado com algo importante e desse as caras na rua. Mas, das casas ao redor, ele só recebia de volta o silêncio inerte das portas fechadas. Aquela indiferença mais o intrigava que o incomodava e, por produto inesperado daquele silêncio, surgiu uma sensação intensa de que estava sendo desafiado. “Não é possível que não me vejam aqui nu em pêlo”, pensou sorridente, “estão a me pregar uma peça.” E, como se estivesse numa brincadeira de esconde-esconde, começou a revirar cada canto da cidade. Invadiu casas, olhou embaixo das camas e dentro dos armários, abriu gavetas e revirou malas, explorou latrinas e fornos. Entrou em cada casa existente na cidade e não encontrou um par de olhos que se dignasse a presenciar sua nudez.
Irritou-se. Que brincadeira era aquela? Quem haveria de ter lhe adiantado os passos do insulto nu e avisado a tudo e a todos que escondessem suas vistas? Terminava de confeccionar sua lista de suspeitos quando se deparou com a única casa da cidade que ainda não tinha revistado.
A porta desta, como das outras, estava entreaberta, como se os seus ocupantes tivessem batido em inesperada e não planejada retirada. Repetiu a revista que tomou quase todo o seu dia e, uma vez mais, deu-se com uma casa desabitada. Nem as fotos estavam dentro de seus porta-retratos. Até os espelhos haviam fugido das paredes. A solidão que habitava era tamanha que, quando viu que amanhecia e resolveu voltar para casa, teve que olhar para baixo para ver o próprio corpo nu e recordar como era a forma humana que esteve buscando desde o dia anterior.
Chegou em casa e vestiu seu melhor traje: um terno herdado do pai falecido havia 3 semanas. Juntou o que pode em duas malas e partiu, decidido a deixar pra trás a cidade deserta que o deixara sozinho. Feliz por não ter que se despedir de ninguém, abriu a porta de casa. Sua viagem, no entanto, durou apenas três passos além da porta de casa. Ao abrir a porta que revelava a rua, deixou as duas malas que carregava caírem num soco surdo no chão da varanda, sem saber se ria de nervoso ou se gritava de alegria. Na calçada, enfileirados, todos os habitantes da cidade estavam nus, deitados no chão, com suas barrigas voltadas para o sol que se colocava alto no céu, como que para observar satisfeito seu campo de girassóis libidinosos.
O homem deu os três únicos passos que haveria de dar para fora de casa e, derrotado, fraco e envergonhado, afrouxou a gravata e abriu o primeiro botão da camisa, preparando-se para ficar admirando aquela paisagem eternamente.

PRA TE FAZER DORMIR

Wednesday, December 17, 2008

Novena dirigiu-se à praça principal com seu pavê. Em Poema, cidade de Novena, era tradicional a troca de sobremesas depois do almoço de domingo. As pessoas saiam pouco a pouco de suas casas, pequenos pacotinhos de saciedade, caminhando a passos lentos de digestão e carregando seus pratinhos de doces. Voltavam para casa com o quitute alheio e com o compromisso de devolver o recipiente na segunda-feira pela manhã.
Poema não era populosa, quase cabia numa praça; espaço pequeno, visto que praça, sendo, caso o contrário, parque, bosque ou algo que valha. Embora isso trouxesse vantagens para o prefeito, para a polícia e para o carteiro, era um problema para moças solteiras como Novena. Faltavam bons pretendentes. Poema, cidade sensível e, portanto, majoritariamente feminina, tinha na figura masculina uma raridade disputadíssima. Todas as jovens em idade de casamento se viam obrigadas, caso não quisessem acabar na secura da velha solteirice, a comparecer a cada evento social para se exibirem e lembrarem aos cobiçados solteiros poemenses de que ainda estavam disponíveis. A troca de sobremesas na praça principal era um desses eventos.
Está claro agora o porque da pressa com que se dirigiu Novena à praça principal. Se Deus ajuda quem cedo madruga, Santo Antônio não teria porque não ajudar quem cedo se colocasse no gramado da praça. Tinha a menina os olhos em Carlos, solteiro da vez na cidade, filho do boticário e exímio jogador de peteca, esporte municipal.
Mas enquanto seus olhos procuravam o atleta, seus ouvidos foram surpreendidos por uma voz que declamava em meio ao barulho dos talheres:
“... que te case os lábios com meus beijos, que me dê em mãos os teus desejos...”
Passou seus olhos da procura por Carlos para a busca pelo trovador. De onde sairiam aqueles versos, que chegaram tão íntimos aos seus ouvidos que fizeram Novena se sentir tocada de maneira imprópria?
“...e encontras no meu peito o quarto nosso, que eu me instalo em teu abraço enquanto posso...”
Novena não precisou de mais. Jogou o pavê por cima do ombro e correu atrás da voz que já amava. Sabia que não era de Carlos ou de qualquer outro solteiro conhecido em Poema. Era frase nova, desconhecida. Era o casamento que esperava.
“... que eu te juro não chorar, senão de amor...”
Ela corria tanto que a voz ditando os versos começou a distorcer-se. Cada vez mais aguda, a fala foi tornando-se incompreensível, mas ainda perfeitamente localizável. Corria cada vez mais rápido, competindo contra solteiras que ela não via, mas que jurava estarem também correndo em direção ao seu trovador. E foi na beirada da praça que ela encontrou.
Clara estava sentada num banco, prostrada sobre um toca-fitas, ouvindo as mensagens de um distante namorado. A moça não se lembra muito do rosto dele; há anos partiu com o pai doente em busca de melhores ares para o pulmão. Tudo o que tem são os versos gravados em fitas que chegam semanalmente pelo correio. E uma saudade que dói um bocado.
“... que eu te juro não chorar, senão de amor.”
Ela nem se lembraria do nome do rapaz, caso Novena perguntasse. Mas Novena tinha um nó tão grande na garganta que qualquer pergunta sairia perdida no pranto. Resolveu sentar-se, calada, ao lado de Clara, e lá deixar-se ficar. Solteira.
Em Poema nunca houve amor feliz.

SECO

Thursday, November 27, 2008

Daqui de onde eu vejo
Daqui dessa saudade
Me falta paisagem...
Às vezes um bocejo
Às vezes, caridade
Me sinto uma bobagem...
Não sinto quase nada
Não sou pra quase nada
Nem sei se sou verdade...
É sempre um pulso lento
Sempre a falta de vento
Pra sempre a mesma idade...
Já fui muita vontade, gritei meus mil lampejos
Agora eu choro calada
De todos meus desejos, sobrou-me a crueldade
Viver caiu no esquecimento...
Faz tempo, eu não me vejo
De mim tenho saudade
Sou mera paisagem...

FISIOLOGIA DO CORAÇÃO PARTIDO

Saturday, October 25, 2008

“Os peixes são os animais que, com sistema circulatório desenvolvido, têm o coração mais simples”, já me dizia a apostila nos tempos de cursinho. Um átrio, um ventrículo, só. Sem mais delongas. O sangue entra venoso, passa pelas brânquias, vira arterial e só se atreve a voltar ao coração quando se gasta em venoso novamente. Simples e objetivo; esse é o coração do peixe.

Tentei explicar à minha menina que o processo evolutivo fez nosso coração tão complicado. Falei da complexidade que é ser governado por um órgão com dois átrios, dois ventrículos, veias e artérias à balde e o sangue indo e revindo hesitante, sem coragem de ganhar o corpo de uma vez. Não tinha como: meu coração do jeito que era só dava para ter amor inquieto. Mas ela - lástima! - era bem menina mesmo e, em matéria de coração, ainda estava no primário brincando de ligar os pontos. Ela reclamava do meu jeito imprevisível; não lhe dava segurança. Foi embora atrás de paz e partiu-me o coração.

Eis que hoje me aparece a tal menina, já menos escolar e querendo retomar o meu amor de ir-revir. Ela quer o amor de coração complexo, de juras e repentes carinhosos. Ora vejam, quer que eu ame como amei há muito tempo.

Sinto muito, minha menina, mas o meu amor mudou. Não é mais aquele amor tão complicado de mamíferos e aves. Não é mais amor complexo de circulação indecisa e barroca em seus rococós. Meu amor agora é amor de coração partido ao meio, um átrio, um ventrículo, só. É amor simples e objetivo.

Meu amor agora é amor de peixe.

AMORATÓRIA

Tuesday, October 21, 2008

Difícil é declamar a poesia.
As entonações nunca dão certo
As pausas me confundem
E os sentidos se perdem:
Seu eu falo de rosas (quase sempre)
Me entendem violetas.
Violetas...
E seria eu capaz de poetar sobre violetas
Tendo rosas por aí?
Difícil declamar a poesia.
Melhor pra mim deixá-la em segredo no papel.

 
VIVER DE BRISA - by Templates para novo blogger